OUTUBRO (2008)
A MULHER
O HOMEM
A IRMÃ
A PSICÓLOGA
A MÃE
A MÃE 2
A MULHER – POLÍCIA
O POLÍCIA
A EMPREGADA
1.
Num consultório. Duas mulheres.
A PSICÓLOGA trazendo duas chávenas de chá … Diz-lhe que é só para conversar quando lhe apetecer. Ou será que ela prefere num sítio informal, um café ou assim?
A MÃE 1 Não, ela disse que preferia vir cá, se viesse…
A PSICÓLOGA senta-se Fala do assunto como se não fosse nada, mas insiste.
A MÃE 1 Eu acho que ela quer vir. Vamos lá ver. (Pausa. Bebe chá.) Achas que eu devia vir com ela?
A PSICÓLOGA Não, isso é melhor não, depois não se ia sentir à vontade. É melhor vir sozinha, ou com o marido.
A MÃE 1 O marido? Não sei se ele quer vir.
A PSICÓLOGA Não precisam de vir juntos.
A MÃE 1 Ah! Pois. Tu é que és a Psicóloga.
A PSICÓLOGA (Dá um gole.) Bom, mas adiante… Como estás?
A MÃE 1 (Sem dar importância.) Oh.
A PSICÓLOGA Tudo na mesma?
A MÃE Sim. Tudo.
A PSICÓLOGA Quase dois anos, não é? Pode ser que melhore.
A MÃE Já não acredito.
A PSICÓLOGA É preciso acreditar.
A MÃE Dizem que não tem evoluído. Nestes últimos anos deixou de se mexer, está deitado, ligado às máquinas.
A PSICÓLOGA A evolução pode ser muito lenta ou de um dia para o outro.
A MÃE Não sei. Às vezes só me apetece deixar tudo e ir-me embora. Mas que mal é que eu terei feito…
A PSICÓLOGA Tens de ter força.
A MÃE Eu sei. Já estou à espera há quase quinze anos. Ele tinha cinquenta. Bom, se tivesse começado quando era mais novo tinha sido pior. Agora, estou mais preocupada com ela, já tive uma boa vida.
A PSICÓLOGA Eu já desisti de esperar.
A MÃE Mas tu não te casaste?
A PSICÓLOGA Sim, duas vezes. Tenho sempre tanta coisa que fazer… nem tenho tempo para pensar nisso.
A MÃE Não tens medo de ficar sozinha? E aquela tua amiga?
A PSICÓLOGA Onde é que isso vai… Já não tenho medo de nada. E se tiver tenho o Che, para me fazer companhia.
A MÃE É o teu cão não é? Aquele que tu tinhas, branco?
A PSICÓLOGA Não, esse já morreu, coitado. Atropelado. Agora tenho um castanho.(Curta pausa. Bebe chá.) Mas já conversaram?
A MÃE Continuo se perceber que raio de casamento é aquele…
A PSICÓLOGA Mas, pelo que me disseste, se ainda vivem juntos, nem tudo está perdido.
A MÃE Ela diz que está tudo bem.
Pensava que fosse mais forte.
A PSICÓLOGA As crises conjugais são normais, na idade dela. Mas achas que ela está deprimida como?
A MÃE Não come, está sempre de pijama a ver televisão, meteu baixa… parece que desistiu.
A PSICÓLOGA Hoje a depressão é uma coisa bastante comum. Muita gente sofre disso e nem sabem. Há quem diga que é a epidemia do século XX e XXI, agora.
A MÃE Eu devia ter sido mais dura, se calhar.
A PSICÓLOGA Talvez. (Pausa.) Vou dar-te o meu cartão. (Dá-lhe um cartão) Quando quiseres telefona.
A MÃE Tenho de ir e obrigada por tudo.
A PSICÓLOGA Já sabes que estás à vontade..
(Despedem-se, a Mãe sai.)
2.
Luz. No mesmo consultório.
A PSICÓLOGA … Tenho uma mala parecida com essa. É de pele?
A MULHER Acho que sim.
A PSICÓLOGA A minha é imitação, mas é mesmo parecida. A sua é mais bonita.
A MULHER Obrigada.
A PSICÓLOGA Esse bolso aí de lado deve dar muito jeito.
A MULHER Sim é para pôr o telemóvel e coisas pequenas, o porta-moedas…
A PSICÓLOGA Sente-se, esteja à vontade. Olá, sou a Helena.
A MULHER Olá. Sou Ana.
A PSICÓLOGA A última vez que te vi, Ana, ainda nem andavas. Posso tratar-te por tu?
A MULHER Claro. Pois, a minha mãe falou-me disso.
A PSICÓLOGA Ela pediu-me para falar contigo e eu disse-lhe que se tu quisesses não havia problema.
A MULHER Pois.
A PSICÓLOGA Nós já nos conhecemos há muito tempo.
A MULHER Sim, ela fala de si.
A PSICÓLOGA Podes tratar-me por tu, também não sou assim tão velha.
A MULHER Desculpe.
A PSICÓLOGA Estás a pedir desculpa por eu ser velha ou por me tratares por tu?
A MULHER Não, não é isso, é que nunca sei como hei-de tratar as pessoas, por tu ou por você.
A PSICÓLOGA A mim podes tratar por tu.
A MULHER Está bem.
A PSICÓLOGA Não tenhas medo. Pronto, eu sou psicóloga, sei ouvir, é o meu trabalho…
A MULHER Pois. Eu não tenho medo.
A PSICÓLOGA Ás vezes as pessoas pensam que eu vou descobrir que são malucas, ou que têm alguma doença mental grave e ficam cheias de medo.
A MULHER Sim, mas eu não tenho nada disso, acho.
A PSICÓLOGA Eu sei, só quero conversar, se achares bem, claro. Queres um café ou assim?
A MULHER Pode ser.
A PSICÓLOGA Vou buscar.
A MULHER fica sozinha, olha em volta, nunca tinha estado num consultório destes antes. O HOMEM entra em cena, é como se estivesse na sua cabeça, a MULHER não fica surpreendida ao vê-lo.
A MULHER Não quiseste vir.
O HOMEM (Está vestido com um sobretudo e um cachecol. Tem uma mala de viagem.) Perguntaste? Não perguntaste.
A MULHER Faço sempre tudo sozinha. Também devias estar aqui.
O HOMEM Não sou eu que estou fechado em casa há quase dois anos. Não fui eu que meti baixa, que deixei de me mexer, de comer.
A PSICÓLOGA entrando com o café e um açucareiro Não pûs açucar.
A MULHER Eu quase não ponho.
A PSICÓLOGA sentando-se Então, vamos conversar sobre o quê?
A MULHER Não sei.
(Pausa.)
A PSICÓLOGA Olha, vou mostrar-te um livro que comprei ontem. (Levanta-se e pega num livro que está numa mesa.) É sobre pintura, um pintor norueguês, o Munch, não sei se conheces?
A MULHER Não.
A PSICÓLOGA Passas a conhecer. Gostas de pintura?
A MULHER Sim. Não perecbo é aqueles quadros abstractos.
A PSICÓLOGA Pois, mas este não é abstracto. Anda cá ver.
A PSICÓLOGA folheia um pouco.
A PSICÓLOGA Então, que achas?
A MULHER É bonito mas mete um bocado de medo.
A PSICÓLOGA É um génio. Olha este é o mais conhecido, “O Grito”.
Os temas são a doença, a morte a traição… Este também é muito famosos, “ A Menina Doente”…
A MULHER É um bocado deprimente.
A PSICÓLOGA Mas a pintura dele é uma espécie de exorcismo dos males de que sofria. O Expressionismo. Caras sem feições, defocadas…
A MULHER Não têm olhos…
A PSICÓLOGA Olha, este é “ O Beijo”. As mulheres eram, ou muito frágeis e vítimas, ou então causadoras de grande mal. Vê, é como se fosse uma vampira, que suga a vida do homem.
A MULHER Machista?
A PSICÓLOGA Não. Talvez um pouco fraco, solitário.
A MULHER Deve ter sofrido muito.
A PSICÓLOGA Toda a gente sofre, tu não?
A MULHER Mais ou menos.
A PSICÓLOGA Se pintasses, como é que pintavas as mulheres?
A MULHER Não sei?
A PSICÓLOGA Pintáva-las tristes ou alegres?
A MULHER Talvez tristes e às vezes alegres.
A PSICÓLOGA Se pintasses um homem e uma mulher, como é que os fazias?
A MULHER Como? Não sei.
A PSICÓLOGA Imagina. Estavam juntos ou afastados, por exemplo?
A MULHER Talvez afastados.
A PSICÓLOGA De costas? Um para o outro?
A MULHER Sim, de costas um para o outro.
A PSICÓLOGA A falar?
A MULHER A falar? Sim… ela a falar, ele calado.
A PSICÓLOGA Sobre o quê? A falar sobre o quê?
A MULHER Talvez… ela a falar sobre as suas preocupações, os seus medos… a vida.
A PSICÓLOGA E ele a ouvir?
A MULHER Não, acho que não… ele a pensar noutra coisa.
A PSICÓLOGA Em quê?
A MULHER No trabalho, ou então…noutra mulher.
A PSICÓLOGA Mas qual era a relação entre os dois? Casados, amigos, amantes…?
A MULHER … Talvez casados. Ela a querer fazer coisas e ele não.
A PSICÓLOGA Ela gosta dele?
A MULHER Sim, muito. Ama-o.
A PSICÓLOGA E ele?
A MULHER Ele não. Ele já não gosta dela.
(Pausa.)
A PSICÓLOGA E como é que pintavas isso? Com que cores?
A MULHER Não sei, talvez… cinzento, castanho… preto, roxo.
A PSICÓLOGA Roxo? Porquê roxo?
A MULHER É a cor do amor dela.
A PSICÓLOGA Com caras ou sem caras?
A MULHER Podia ser só com olhos.
(Pausa.)
A PSICÓLOGA E a história deles? Como é que se conheceram?
A MULHER Sei lá.
A PSICÓLOGA Inventa qualquer coisa.
A MULHER Talvez na faculdade. Já há muito tempo, eram miúdos.
A PSICÓLOGA Conheci o meu primeiro marido na faculdade, em sessenta e oito. Fazíamos parte de um movimento associativo.
A MULHER Gostava de ter vivido nessa altura.
A PSICÓLOGA Não digas isso.
A MULHER Ao menos havia ideais, lutava-se por qualquer coisa. Agora está tudo parado.
A PSICÓLOGA As coisas estão diferentes. Que curso é que tiraste?
A MULHER Não acabei. Era Sociologia.
A PSICÓLOGA Também podia ter seguido Sociologia, sempre gostei de ciências sociais. Gosto de pessoas.
(Pausa.)
Então, mas que idade teria então esse casal da tua pintura.
A MULHER Já com muita idade. Para aí setenta anos.
A PSICÓLOGA Tanto? (Pausa.) E achas que tu podias ser a mulher?
A MULHER Não, só tenho 30.
A PSICÓLOGA Se fosse mais nova.
A MULHER Talvez…se fosse…
A PSICÓLOGA Desculpa interromper, como é que se chama o teu marido?
A MULHER João.
(Escuro.)
3.
Luz. Numa casa de família. Um jantar.
A IRMÃ O que é que diz o João?
A MULHER Que a decisão não é só minha.
Mas que sou eu que digo sempre que é.
A IRMÃ Então fica o assunto resolvido. Tu é que decides.
A MULHER Mas ele também gostaria de dar a sua opinião.
A IRMÃ Então como ficamos?
A MULHER Ele diz que não quer entrar em discussões. Que se eu quisesse saber tinha perguntado antes. Não dizia logo o que tinha decidido. Que decidi e depois, já agora, perguntei o que é que ele achava.
Eu só dei a minha opinião.
(Pausa.)
A IRMÃ Parece que o assunto está resolvido. Já marcaste?
A MULHER Amanhã.
A IRMÃ Queres que vá contigo?
A MULHER Não é preciso?
A IRMÃ Vais sozinha? Não podes ir sozinha!
A MULHER Eu consigo ir sozinha, não te preocupes.
(Pausa.)
Gostas da comida?
A IRMÃ Está boa.
A MULHER É uma receita antiga que a tia deu à mãe.
(Comem. O HOMEM entra na cena.)
(Pausa.)
A MULHER A culpa não é minha.
O HOMEM Minha também não.
A MULHER Não é tua?
O HOMEM Eu já não aguento mais.
A MULHER Eu já sabia.
O HOMEM Estou farto. Estou tão farto.
A MULHER Pois eu sei.
O HOMEM Desisto.
A MULHER Eu sei, já desististe há muito tempo.
O HOMEM Sim, desisti de tentar, não dá.
(Pausa.)
A IRMÃ E como vão ficar as coisas?
A MULHER Acabou.
A IRMÃ Mas por causa disso?
A MULHER Não. Ele já não gosta de mim. E eu não sei se gosto dele.
A IRMÃ Queres ir para minha casa durante uns tempos a ver se as coisas acalmam?
A MULHER Não, deixa estar, vou falar com a mãe.
A IRMÃ Mas o que é que ele te disse, afinal? Vai sair de casa?
A MULHER Disse que se ia embora. (Para o MARIDO.) Nunca gostaste de mim.
O HOMEM Isso não é verdade.
A MULHER Essa é que é a verdade. Mentiste-me desde o início. Já nem sabes o que é que é verdade.
O HOMEM Sabes tu? Estou farto de fazer parte da tua fantasia estúpida do que é a vida, do que é o amor. A culpa é minha, a culpa é minha por ter desistido. Falhei, pronto, fui eu.
A MULHER (chora) Talvez eu tenha falhado. Talvez em algumas coisas
O HOMEM Agora vamos ficar a discutir sobre quem é que falhou, no que é que falhou… estou tão farto disto.
A MULHER Já nem consegues falar comigo.
O HOMEM …
A MULHER Já nem consegues olhar para mim. Olha para mim. Olha.
O HOMEM Vou-me embora.
A MULHER Eu já sabia.
O HOMEM Não suporto isto.
A IRMÃ Mas tens a certeza que não queres mesmo ter o bébé? Se calhar ia ser bom.
A MULHER Eu sei. Mas se agora tiver um filho já sei como vai ser a minha vida e ainda tenho tanta coisa para fazer… não é a altura percebes. Talvez daqui a uns anos.
(Pausa.)
A MULHER Eu estou grávida.
O HOMEM Agora vais fazer chantagem?
A MULHER Nem isso te importa.
O HOMEM Não.
A MULHER O teu filho?
O HOMEM Não quero um filho que tenha os pais sempre a discutir.
A MULHER Eu sei que não queres.
O HOMEM Sabes sempre tudo. (sai)
A MULHER Não.
(Escuro.)
4.
Luz. No consultório.
A PSICÓLOGA Estão casados há muito tempo?
A MULHER Dois anos?
A PSICÓLOGA É pouco tempo.
A MULHER Pois.
A PSICÓLOGA Queres falar sobre isso.
(Pausa.)
A MULHER Sobre o quê?
A PSICÓLOGA O teu casamento.
A MULHER Não há muita coisa para falar.
A PSICÓLOGA Queres falar de quê, então?
A MULHER Não sei.
A PSICÓLOGA Do teu trabalho?
A MULHER Estou no subsídio de desemprego.
A PSICÓLOGA És delegada comercial, não é?
A MULHER Isso é a minha irmã.
A PSICÓLOGA Desculpa, fiz confusão. Tu és de letras não é?
A MULHER Sim, revisão de texto, numa editora.
A PSICÓLOGA Poesia ou prosa?
A MULHER Prosa, aqueles que se vendem nos correios.
A PSICÓLOGA E gostas?
A MULHER Tem dias.
A PSICÓLOGA Casaste cedo.
A MULHER Acha?
A PSICÓLOGA falando pausadamente como se não tivesse pressa Sim. Olha, eu quando tinha a tua idade nenhum marido me apanhava. Depois do vinte e cinco de Abril tive um namorado que tinha uma mota e fomos estrada fora, pela Europa. Experimentei tudo. Havia dias em que só ouvíamos música, líamos poesia, fazíamos amor e funávamos erva.
A MULHER (ri) A sério?
A PSICÓLOGA Nem imaginas. Os meus pais iam tendo uma coisa. Passava meses sem dizer nada. Conheci imensa gente. Então quando vi como eram as coisas no estrangeiro. Que este país estava atrasado uns bons vinte anos, nem me apeteceu voltar. Até conheci membros da ETA, do país Basco. (ri) Não, não andei a pôr bombas, mas só por acaso. Depois só me casei aos trinta e cinco, quer dizer, juntei-me como se diz, assentei. O curso demorou para aí uns dez anos, acabei na Sorbonne, a tese. Dei uns bons tombos, é verdade. Sabes quem conheci em França? O Brél, a Durás, o Cocteau, o Jonhy Haliday, pintores então… Paris naquela altura era uma coisa… os surrelistas. Nessa altura o mundo estava a mudar, ou parecia, o Maio de sessenta e oito tinha deixado marcas. Víviamos como se não houvesse amanhã.
A MULHER Hoje as coisas estão mais calmas.
A PSICÓLOGA Sim, já passou o tempo das revoluções, das guerras, das novas descobertas… mas os governos continuam a tomar decisões que interferem na nossa vida, sem nós sabermos…
A MULHER Pois, às vezes sinto um grande vazio.
A PSICÓLOGA Eu continuo a achar o que achei sempre. A vida é sagrada, de alguma maneira… as relações pessoais, o conviver com os outros, sair de casa…
(Pausa.)
E novidades?
A MULHER Novidades?
A PSICÓLOGA Desde a última vez que nos vimos?
A MULHER Nada de especial.
A PSICÓLOGA A tua mãe como está?
A MULHER Na mesma. Vou almoçar com ela hoje, vamoz fazer um pic-nic.
A PSICÓLOGA Que bom. Adoro pic-nics.
A MULHER Vou sair um bocado. Tenho estado muito tempo em casa, desde que saí do meu emprego.
A PSICÓLOGA E o que costumas fazer em casa?
A MULHER Arrumo, mudo os móveis várias vezes, vejo muita televisão… não sei.
A PSICÓLOGA E o João?
A MULHER Não. Não tem tempo, está sempre a trabalhar.
A PSICÓLOGA E ao fim-de-semana?
A MULHER Aí aproveita para descansar da semana, dorme até tarde.
A PSICÓLOGA Percebes alguma coisa do trabalho dele? Ele fala-te do que está a fazer?
A MULHER Não, nem por isso.
A PSICÓLOGA E que planos fazem juntos?
A MULHER Às vezes vamos passar uns dias fora, mas é quase como se estivéssemos em casa.
A PSICÓLOGA Ele trabalha em casa? Ou faz muitas coisas sozinho?
A MULHER Sim, às vezes nem consigo falar com ele.
A PSICÓLOGA E o que fazes quando ele está nas coisas dele?
A MULHER Às vezes vou às compras, vejo televisão, fumo.
A PSICÓLOGA Fumas muito?
A MULHER Bastante.
A PSICÓLOGA Devias tentar fazer outras coisas. Costumas ler, por exemplo?
A MULHER Muito pouco. Já pensei em acabar o curso mas acho que não ia conseguir.
A PSICÓLOGA É uma ideia muito boa. Porque é que não tentas?
A MULHER Não ia aguentar aquele ambiente outra vez. Os professores, os colegas…
A PSICÓLOGA Sim, agora ia ser mais difícil. E desporto? Gostas?
A MULHER Fiz ginástica durante muitos anos mas agora não era capaz de ir para um desses ginásios. Só se fosse ao ar livre. Uma amiga minha aconselhou-me a ir para o Yoga.
A PSICÓLOGA É uma ideia muito boa. O yoga é óptimo.
A MULHER Quando era pequena sonhava ser bailarina. Uma filha de uma vizinha da minha avó andava no ballet e depois foi para Moscovo, para o Bolshoi. A Adriana. Lembro-me de a ver mais tarde. Era linda.
A PSICÓLOGA Era?
A MULHER É, nunca mais a vi.
A PSICÓLOGA Tu também és muito bonita, não é por aí que vais ter problemas.
A MULHER Obrigada. Está só a fazer-me sentir bem, não é?
A PSICÓLOGA Não é essa a minha função, pelo menos de maneira tão descarada, mas adiante.
A MULHER Eu acho que nunca fiz nada a sério. Se calhar devia ajudar os outros. Inscrever-me como voluntária numa dessas associações humanitárias ou assim, ir para África ou para a Índia.
A PSICÓLOGA Também não é má ideia. Achas que tinhas mesmo coragem para fazer isso.
A MULHER Acho que sim. Mas depois há o meu pai, a minha mãe, separar-me deles…
A PSICÓLOGA Do João, conseguias?
A MULHER Se calhar era o que devia fazer.
(Escuro.)
5.
Luz. Um piquenique no campo. Uma mãe fala com a filha. A filha parece muito preocupada. A mãe também mas contudo parece ausente, por vezes. O marido da mãe, como se estivesse no passado, com trinta anos, está meio deitado na relva, com ar absorto, como se não visse nem ouvisse nada nem ninguém.
A MÃE Não comeste nada.
A MULHER Estou sem fome.
A MÃE Ontem estive mais de meia-hora sem conseguir sair de casa.
A MULHER Então?
A MÃE Estava uma barata no corredor. Primeiro comecei aos gritos e a bater com os pés a ver se ela se escondia, mas nem se mexeu. Depois, lá ganhei coragem, fui buscar um cobertor e atirei-o para cima dela. Pisei o cobertor todo e, que horror, quando destapei para ver se estava morta tinha desaparecido. Desatei a correr até sair de casa. Depois nem conseguia voltar, à noite.Lá me decidi, meti a chave à porta, acendi a luz, e lá estava ela, no meio do corredor, com as patas viradas para cima. Estava morta. Mas não tinha nem uma amolgadela. Que estranho. Como é que terá morrido? Perguntei eu. Será que é outra, a barata?
A MULHER Oh mãe! Que nojo.
A MÃE Se calhar já estava velha, como eu.
A MULHER Pára.
(Pausa.)
A MÃE E o teu marido?
A MULHER Não sei.
A MÃE Gostaste da comida?
A MULHER Estava boa.
A MÃE Mas mal tocaste na carne.
A MULHER Tenho andado maldisposta.
A MÃE Foi a tua tia que me deu a receita. Há mais de vinte anos. Maldisposta? Foste ao médico?
A MULHER Sim, tenho ido.
A MÃE Estás grávida, filha?
A MULHER Não. Acho que não.
A MÃE Temos de ir comprar roupa, precisas de coisas novas. E devias ir ao cabeleireiro, esse cabelo está sem jeito, queres o meu pente?
A MULHER Oh mãe! Não tenho onze anos!
A MÃE E o teu marido, não sabes dele como?
A MULHER Não quero falar dele.
(Pausa.)
A MULHER Acabou tudo.
desta vez é definitivo.
A MÃE Mas vocês estão sempre a discutir. Vais ver que isso depois passa.
A MULHER Não passa não.
Podemos mudar de assunto?
A MÃE De certeza que não queres o pente? Ao menos penteavas-te.
(Pausa.)
A MÃE Podias aproveitar e desabafar. Não estamos assim juntas todos os dias.
A MULHER Obrigado mas prefiro não. (Pausa.) E o pai, tens ido vê-lo?
A MÃE Não me lembro, já nem sei. Ás vezes parece que fui ontem. Às vezes parece que fui há um ano. É sempre igual.
Agora está deitado, já nem se mexe e fechou os olhos.
Os médicos dizem que pode demorar um dia ou dez anos... pode ser que nunca mais...
A MULHER Eu não consigo lá ir. Desato a chorar e nem consigo ver nada com os olhos cheios de lágrimas.
(Pausa.)
A MÃE E a tua irmã? Disse-te alguma coisa?
A MULHER Sobre o quê?
A MÃE Parece que vai viajar.
A MULHER Para onde?
A MÃE Não me disse. Em trabalho, ou que é. Mas parecia muito nervosa.
A MULHER Não sei.
(Pausa.)
A MÃE Vocês nunca me contam nada. Que belas filhas, sempre cheias de segredos.
A MULHER Não te preocupes.
A MÃE Mas eu quero ajudar. Não posso ajudar?
A MULHER Não é isso.
A MÃE Então o que é?
O HOMEM Estou vivo.
A MULHER Nada.
A MÃE Já há tanto tempo que está sozinha. Não a tenho visto com ninguém.
O HOMEM Vejo-vos, ouço-vos. Se calhar ainda não nasci ou já morri, mas estou vivo.
A MULHER Pois eu também não?
A MÃE E aquele colega dela, o louro? Parece simpático.
A MULHER Não sei quem é.
(Pausa.)
O HOMEM Eu sei quem sou. Sou eu. Ela está apaixonada por mim. Eu sou eu.
A MULHER Mãe?
A MÃE Diz?
A MULHER Nada.
A MÃE O que é?
A MULHER Acho que ele anda com outra.
A MÃE Estás doida?
O HOMEM (rindo) Não estamos todos? Eu estou. Estou doido e existo. Ouvem-me? O vosso pai está doido. O teu marido está doido e o teu filho também.
A MULHER Não. Tenho quase a certeza.
A MÃE Não pode ser.
A MULHER Pode, pode. Tenho a certeza.
O HOMEM Eu também, estava lá, beijou-me a mim, os lábios quentes, os meus estavam frios. A saliva dela é a minha saliva também.
A MÃE Reparaste como este ano as folhas caíram mais cedo, já está tudo coberto.
A MULHER Não sei. Se calhar é só imaginação minha. Se calhar estou a inventar tudo.
O HOMEM Acredita nela. Nunca acreditaste em mim mas acredita nela. Ele está muito confuso, não sabe se já partiu ou ainda cá está. Não sabe quem é nem quem são vocês. Sabe que ama mas não sabe quem. Ele ou eu, tanto faz.
(Pausa.)
A MÃE Deixa-o.
A MULHER Pois, se calhar é melhor ?
A MÃE Sempre foste muito inocente.
A MULHER Achas?
A MÃE Sim, devíamos ter trazido talheres de plástico e um guarda-chuva daqueles grandes. E se chove? Não há nuvens mas de repente pode chover.
A MULHER Não como há três dias mãe.
O HOMEM Não me veêm? Estou aqui, ainda não morri. Ouço tudo o que dizem e vejo o que fazem. Aqui ou em qualquer sítio.
A MÃE Desde o início. Nunca devias ter ficado com ele. Avisei-te, não foi? Eu vou falar com ele.
A MULHER Não vale a pena.
A MÃE E tu?
A MULHER Vou para casa.
A MÃE Deixa estar que eu levo a toalha. A tua irmã pode falar com ele.
O HOMEM Estou aqui.
A MULHER Não é melhor não. Nem pensar.
A MÃE Eles dão-se bem. Estão sempre a rir quando estão juntos, talvez ela consiga perceber o que anda ele a fazer.
O HOMEM Amo-vos a todas. Todas são uma e eu amo-vos a todas.
A MULHER Não ela não. Não quero que ela fale com ele, não quero que ninguém fale.
A MÃE Não quero interferir, faz como quiseres.
A MULHER Um dia digo-te porque é que não quero que falem um com o outro.
A MÃE O quê? Não percebo. Um dia?
A MULHER Vamos embora?
A MÃE Muitas vezes sentia-me sozinha, por causa do trabalho dele. Mas que podia eu fazer? Não podíamos estar sempre juntos. Ele apoiou-me sempre. Nestes dias lembro-me que ele andava sempre com aquele boné azul, por causa do vento, da careca.
A MULHER E como foi quando se conheceram?
A MÃE Foi num dia de chuva, estávamos cheios de frio... sabes, viver, a vida é mais importante do que tudo.
A MULHER Estou muito confusa. Se calhar não é ele o amor da minha vida, se calhar enganei-me, ou ele enganou-se. Se calhar gosta de outra mulher.
A MÃE Pois. Aos anos que não vinha aqui. Sabes que a última vez que aqui estivémos foi com os teus tios, o teu pai tinha comprado uns ténis que lhe estavam apertados, então cortou-os à frente e disse que ficavam para o Verão, umas sandálias. Deitei-os fora, claro.
O HOMEM Ela não tem culpa. Nenhuma de vocês tem culpa. Eu estou vivo mas se calhar não aqui. Aqui não. Se calhar só existo aí.(aponta para as duas mulheres.)
A MULHER Se calhar é melhor acabar já, quanto mais tempo passa pior.
A MÃE Se calhar é melhor. Ajuda-me a levantar.
(Sai.)
O HOMEM Sou vosso e nunca serei de ninguém. Eu não existo. Não estou morto. Não existo. Ouvem-me? Ainda nem nasci. Só posso nascer depois de morrer. Depois dele morrer.
6.
No consultório.
A PSICÓLOGA … certo, exactamente… e agora como te sentes?
A MULHER …um pouco melhor.
A PSICÓLOGA …reflectiste bem no que falámos?
A MULHER …sim.
A PSICÓLOGA Bom, é apenas o início do tratamento, sabes que uma boa parte vai depender da perseverança da tua disciplina mental e sobretudo daquela coisa que falámos na última consulta.
A MULHER Sim, já sei, uma coisa de cada vez, por objectivos, planear e concretizar…
A PSICÓLOGA …sim, sobretudo concretizar, mais vale tomar uma decisão errada do que não tomar nenhuma, as indecisões amontoam-se e depois não chegas a concretizar nada.
A MULHER É difícil escolher, são tantas hipóteses.
A PSICÓLOGA Claro. Não se pode ter tudo, ao escolher umas coisas abdicamos de outras. (Longa pausa.) E a tua mãe, como está?
A MULHER A minha mãe, está óptima… reformou-se.
A PSICÓLOGA Eu sei. E como achas que ela vai viver agora?
A MULHER Não sei, nunca percebi o que ela quer… sei que quer ajudar-me e se não fosse ela não sei onde estaria.
Gostava de falar com ela, dizer-lhe o que sinto, a sério, mas é impossível parece que não me ouve, nunca me deixa terminar. Diz-me sempre que também sofreu muito, talvez até mais do que eu.
A PSICÓLOGA Ela só quer o melhor para ti. Por isso é que não te deixa falar, tem medo que quanto mais fales menos faças.
A MULHER Eu não consigo acompanhar o ritmo dela.
A PSICÓLOGA E o teu pai. Como está ele?
A MULHER Não há muito para falar, está no estado que já lhe disse, continua na mesma.
A PSICÓLOGA E já decidiste o que vais fazer? O que vais escolher?
A MULHER Ainda não.
A PSICÓLOGA E vais para onde?
A MULHER Para qualquer sítio.
A PSICÓLOGA Ainda não me falaste do teu pai.
A MULHER Quando penso no tempo que perdi no que não aprendi por não ter tomado decisões.
Foi como uma nuvem escura na minha cabeça durante muito tempo e agora parece que nasci, nasci de novo e não sei nada, todos me passaram à frente, todos têm vidas e eu não, todos são responsáveis pela vida que escolheram e eu não… se calhar vou-me embora, tentar noutro sítio.
A PSICÓLOGA Fazemos assim: na próxima consulta, promete-me que vais trazer um plano, ou um esboço de um plano para o que vais… o que queres fazer, está bem?
A MULHER Não sei,…está bem.
A PSICÓLOGA Vais ver que não dói, depois é só arregaçar as mangas.
7.
Num café.
A PSICÓLOGA Obrigada por teres vindo.
A MÃE Eu é que tenho de agradecer. Como é que ela está?
A PSICÓLOGA Está melhor, mas se calhar devia ter falado com ela há mais tempo.
A MÃE Então, porquê?
A PSICÓLOGA Teria evitado que o estado dela se prolongasse.
A MÃE Mas como? Que estado?
A PSICÓLOGA A depressão. Ela está completamente perdida. Não consegue tomar uma decisão, não acredita nela, não consegue escolher. Tem muito medo. Não consegue distinguir o que pode mudar e o que é inevitável. Estou a tentar com que faça coisas, coisas pequenas que a pouco e pouco a façam voltar a ter algum interesse pela vida. Depois, a relação com o marido e a situação do pai potenciam a depressão mas não me parece que seja tudo. Há alguma coisa que ela não me quis dizer ou ainda não tem consciência.
A MÃE Não imagino o que seja.
A PSICÓLOGA Tive uma vez um paciente que também estava constantemente deprimido, tinha problemas financeiros e dava-se mal com a mulher, dizia que tinha um impulso que não controlava, o impulso de traí-la. Que já não gostava dela mas como não tinha coragem de a deixar, traía-a. Que sabia que estava a ser injusto que fazia mal à mulher, mas era incapaz de parar. Tinha tido muitas namoradas quando era novo, dizia-me que estava sempre a mudar, que se calhar era isso, não conseguia ter uma relação duradoura. Descobri, sem querer, porque ele tinha apagado essas memórias, que as suas primeiras duas namoradas, quando era muito novo, o tinham traído. Era esse o motivo. Como era muito emocional, isso marcou-o. Podemos dizer que é normal, os adolescentes fazem mesmo isso, trocam de namorados a toda a hora, que é normal, mas não é bem assim. Depende do valor que cada um dá ao que lhe acontece, não é consciente e às vezes o que nos acontece numa idade muito verde, deixa marcas profundas. Talvez na tua filha seja alguma coisa assim, mas ela não me vai saber dizer e não tenho a certeza de descobrir.
A MÃE Eu também não sei. Não fui daquelas mães que controlavam tudo o que os filhos faziam, se calhar era o que devia ter feito.
A PSICÓLOGA Não, não é isso. Também pode ser mais um sinal dos tempos que correm. Há cada vez mais pessoas nesta situação.
A MÃE Mas achas que vai ficar boa?
A PSICÓLOGA Vamos trabalhar para ela não ficar assim até ser tarde demais. Para ter uma vida interessante, viva. Ser um pouco feliz.
Eu sugiro que deixes de dar importãncia, ela não precisa de que lhe mostrem preocupação, se a deixarem mais sozinha terá de fazer alguma coisa.
A MÃE Eu estou sempre a tentar perceber se está tudo bem mas ela nunca se abre. No outro dia disse-me que suspeitava que o marido estava com outra mulher…
A PSICÓLOGA E está?
A MÃE Eu acho que não, mas se estiver não sei como irá reagir.
A PSICÓLOGA Achas que há hipótese de voltarem?
A MÃE Não sei, talvez.
A PSICÓLOGA A relação deles pode ser um factor que a prejudique mas ainda não percebi, era bom que conseguisse falar com ele.
A MÃE Posso eu falar com ele.
A PSICÓLOGA Sim. Bom, já estou muito cansada. E tu?
A MÃE Na mesma.
A PSICÓLOGA Que situação ingrata.
A MÃE Eu estava a pensar em ir viajar, desanuviar um pouco, que achas?
A PSICÓLOGA Parece-me bem. Sozinha?
A MÃE Se calhar. Achas mal?
A PSICÓLOGA Eu? Porque é que haveria de achar mal?
A MÃE Não me analises, por favor.
A PSICÓLOGA Desculpa, é o hábito. Vais para onde, posso saber?
A MÃE Talvez até à Holanda.
A PSICÓLOGA Ah, a Holanda, o que eu me diverti em Amsterdão, nos anos setenta.
Em Lisboa ainda andava tudo de gravata e malinha de mão e eu de calças rasgadas, descalça e com um flôr no cabelo.
A MÃE Tiveste uma sorte.
A PSICÓLOGA Arrisquei e fez-me bem, mas achas que encontrei o que procurava, nessas minhas viagens? Às vezes andamos pelo mundo à procura e está tudo cá dentro. Mas lá que me divert, diverti.
A MÃE Imagino.
A PSICÓLOGA Foi quando conheci a Maria Pommrenke.
A MÃE Ah!
A PSICÓLOGA Nessa altura ainda nem me tinha casado.
A MÃE Mas casaste e já sabias, ou não?
A PSICÓLOGA Mais ou menos, só depois do segundo é que resolvi assumir e não me arrependo nada.
A MÃE Eu não consigo entender, mas cada qual…
A PSICÓLOGA Não deixaste de ser minha amiga, pois não?
A MÃE Claro que não.
A PSICÓLOGA É tão simples quanto isso. Já com os meus pais não foi bem assim, mas também já estavam com muita idade.
A MÃE Ao menos livraste-te dos homens.
A PSICÓLOGA Será que é diferente? Mas agora tenho mesmo de ir. Faz boa viagem.
A MÃE Obrigada. Vai ser uma viagem e tanto. Vai ser uma viagem e tanto.
II
1.
É de noite. Sons de uma chuva intensa com trovoada. Ao mesmo tempo ouvimos uma música alta. “The Passenger” de Iggy Pop..
Estamos numa auto-estrada. Muito de vez em quando passam carros.
A MULHER - POLÍCIA Tira.
O POLÍCIA É giro.
A MULHER – POLÍCIA É. Mas é só barulho.
O POLÍCIA Dá vontade de acelerar.
A MULHER – POLÍCIA Tira, tira.
O POLÍCIA Está bem. Gostas de outro tipo de música, não é?
A MULHER – POLÍCIA É.
(O Polícia tira a música. Pausa.)
A MULHER –POLÍCIA Agora está a acelerar? Deve estar a ouvir a mesma música que tu. Pensei que se tinha esquecido das luzes, mas as da frente estavam acesas… Tu viste. Ia devagar. Não ia? (Fala como se repetisse a conversa que teve.) Eu só disse: “ Boa noite. Pode abrir o vidro por favor? Está tudo bem, minha senhora?”
E pedi os documentos… tudo em ordem. Só falava do tempo e da chuva. Nervosa. Saiu do carro, eu abri o chapéu e fui ver mas não era nenhum mau contacto. Disse-me que não sabia que estava sem luzes...
“Vou para o Porto!” “Mas a uma hora destas?” (Para o colega.) Com este tempo e nestas condições? Foi aí que saiste do carro.
O POLÍCIA Deve ter para aí noventa anos. Passou-se quando eu disse que ia chamar o reboque.
A MULHER -POLÍCIA Também não exageres. Também não tem mais de sessenta.
O POLÍCIA Vai uma aposta?
A MULHER -POLÍCIA (ignorando-o) Depois a história da filha doente, que perdeu a noção das horas…
( No outro carro. A MULHER .)
A MÃE Espero que corra tudo bem.
Vou conseguir, afinal prometi. Prometemo-nos, não foi?
Mas que chuva, Deus do céu.(Pausa.)
Quarenta anos. A última vez.
A MULHER -POLÍCIA (Fala como se contasse a conversa anterior.) Parecia que lhe ia dar uma coisa ali mesmo.“ Tenho de apanhar o avião em Pedras Rubras às sete e um quarto. Estar lá duas horas antes.”
A MÃE Como deixamos de ter mão na nossa própria vida. Que escuridão! (Procura no bolso, encontra um relógio antigo e fica com ele na mão.)
Ainda faltam quatro.
A MULHER-POLÍCIA “E vai fazer o resto da viagem sem luzes?” “Pois, o que é que eu posso fazer?” “ Não pode andar a conduzir assim.”
A MÃE …Com esta chuva que não pára.
Nem sequer há lua, meu Deus!
A MULHER -POLÍCIA “ Não me diga uma coisa dessas, já comprei o bilhete.”
A MÃE “ E não reparou que não levava luzes atrás?”. Não!
“ Não sabe que não pode circular desta maneira?” Não!
A MULHER -POLÍCIA “ Deve ter sido a minha filha. Se calhar bateu e não me disse nada.”
(Para o Polícia) Foi ver a filha doente e perdeu a noção das horas.
A MÃE (Para si.) Já eram horas de ter ido à oficina. Adiar, adiar…
(Pausa.)
A MULHER -POLÍCIA Parou de chover, ainda bem.
A MÃE Parou de chover!
Ainda nem há cinco minutos parecia o dilúvio e agora, nada!
(Numa espécie de transe.) Foi numa noite assim, todos encharcados, chovia mas nem sentíamos a chuva, e beijámo-nos.
A MULHER -POLÍCIA “ Bom meta-se no carro, podemos acompanhá-la, já que vamos para lá.”
(Para o colega.) Se calhar devíamos multá-la e chamar o reboque, não é por nada.
A MÃE Doente? Onde é que fui buscar tal coisa? Doente? Mentirosa.
A MULHER -POLÍCIA “ A lei é para ser cumprida minha senhora.”
(Curta pausa.)
A MÃE (Numa espécie de transe.) Quando era nova! Chovia e eu em caminhos que conhecia bem, a correr, mesmo não enxergando metade das coisas. A chuva na cara, miudínha…
(Pausa.)
A MULHER -POLÍCIA Faltam para aí uns trinta kilómetros…
O POLÍCIA E a história do café, do pequeno-almoço?
A MULHER -POLÍCIA E os cinquenta euros?
O POLÍCIA Estava a tentar subornar-nos.
A MULHER -POLÍCIA (Voltando a falar como se fosse A MULHER .) “ Não, não é isso…” “Então o que é?” “ É só uma maneira de vos agradecer a preocupação e pedir desculpas pela minha… pelo meu descuido, é como se vos convidasse para almoçar… já que me vão acompanhar…”
(Para o colega.) Pode ser acusada de tentar subornar um agente da autoridade.
A MÃE “ Mas não é um suborno, Deus me livre… estou só a pedir desculpas pela minha… pelo meu descuido, é como se vos convidasse para almoçar… já que me vão acompanhar…”
(Curta pausa.)
Não posso perder o vôo. “ É só um jeitinho. Eu vou viajar.” (Curta pausa.) Vou viajar. (Suspirando.) Vou viajar!
A MULHER -POLÍCIA “ Bom, meta-se no carro que nós seguimo-la e é melhor nem dizer mais nada antes que a gente mude de ideias.” (Curta pausa.) Bela ideia!
O POLÍCIA Deixa lá, então não a ouviste dizer que ia apanhar um avião. Já que vamos para lá...
(Pausa.)
A MULHER -POLÍCIA Isto não é o procedimento habitual, não achas?
O POLÍCIA Coitada da mulher , não parece lá muito bem.
A MULHER -POLÍCIA Achas que devíamos multá-la e chamar o reboque?
O POLÍCIA Mas ela vai viajar.
A MÃE Muitíssimo obrigada. Não precisavam. Parou de chover e tudo. Obrigada por serem tão amáveis.
A MULHER -POLÍCIA Não temos nada a ver com isso, temos de fazer o nosso trabalho.
O POLÍCIA Não custa nada, podemos multá-la depois, no Porto.
A MULHER -POLÍCIA E onde é que irá deixar o carro? No aeroporto? (curta pausa)
O POLÍCIA Boa pergunta.
A MULHER –POLÍCIA Parou de chover! Não deve ser por muito tempo, não achas? (Não está lá ninguém.) Estás a dormir? Belo co-piloto.
(Escuro.)
2.
Luz. Amsterdão. No check-out.Um homem numa mesa fala com uma empregada que recolhe a loiça suja e limpa as mesas.
O HOMEM Pode trazer-me mais um whisky se faz favor? Estou à espera de ser atendido, há quase uma hora. É por causa da bagagem. É sempre assim. Que chatice!
Ao menos não estou lá fora à chuva…Pois, ao menos isso. Depois mandam-na para casa.
Espero que não. (Pausa.) Um whisky. Faz-me lembrar alguém, uma antiga colega. Obrigado. Ainda bem que quando perguntei disse-me que era portuguesa. Já há muito tempo que trabalha aqui, já quase não tem sotaque. Obrigado e desculpe, preciso de conversar.
Encontrei a irmã da minha mulher, aqui há pouco, veio fazer um trabalho aqui, que coincidência, não acha?
A EMPREGADA Ela perguntou-lhe com quem estava a falar ao telemóvel, se era a irmã, não foi?
O HOMEM Portugal. Sabe o que acho de Portugal?
A EMPREGADA Por acaso ouvi. Também deve ter estranhado o encontro.
O HOMEM (Fala repetindo a conversa) “ Ouvi a voz dela no telemóvel, o que é que estás aqui a fazer, a minha irmã, onde está?” Isso não me interessa agora, deve estar em casa. (para a empregada) Sozinha.
A EMPREGADA Ainda esteve um bocado a falar com ela. Não gosta de Portugal?
O HOMEM Já falámos tudo. “Ela não consegue ficar sozinha. Eu não estaria a dizer-te isto se fosse de outra maneira, mas já viste como ela está?” Disse-lhe que a irmã precisava de tratamento e veio aqui acusar-me de fugir, de fugir. Está bem, estou a mais de dois mil kilómetros de casa. O que acha de Portugal?
A EMPREGADA Eu tenho muitas saudades, estou farta de estar aqui. Pensei que encontraria alguma coisa diferente aqui, mas não achei nada. É o que eu acho, nada.
O HOMEM Não somos casados, de facto. Enganei-a? Não gostava dela e enganei-a? Enganei-me foi a mim, a mim, enganei-me.
A EMPREGADA Sou do Porto.
O HOMEM Vim de Lisboa. E vou-me embora. Tenho de ir. Vou começar uma vida nova. Sabe o que acho de Lisboa? Sabe o que me respondeu quando lhe perguntei qual era o mal? “ Não tens esse direito, não podes fazer isso à minha irmã, mas o que é que aconteceu?”
(Para a EMPREGADA.) Bom, é uma longa história, já não nos dávamos bem, acho que não. Muita coisa… ela continua a beber (acena com o whisky.)
A EMPREGADA Quer outro?
O HOMEM Acho que não. Ela continua a beber
A IRMÃ (Entrando na cena e indo sentar-se em frente aO HOMEM.) Porquê?
O HOMEM Muita coisa. O que é que te interessa?
A IRMÃ Vais fugir dela.
O HOMEM Não, neste momento vou fugir de ti, estou farto desta conversa. Se queres saber pergunta-lhe a ela.
A IRMÃ Tens de falar com ela. Ver se as coisas podem voltar atrás.
O HOMEM Achas que é possível voltar atrás? Não temos dezoito anos. O amor é assim. (Para a EMPREGADA.) Falei-lhe do amor que tinha à irmã, o que é que eu fui dizer…“ O que é que tu sabes do amor? Viveste dez anos com ela e não gostavas dela.”
A EMPREGADA O meu marido está em portugal, a trabalhar, não conseguiu nada aqui.
O HOMEM (Para a IRMÃ.) Não, isso não é verdade, gostei dela.
A IRMÃ Não se gosta assim. Quando se ama é para sempre.
O HOMEM E tu? Já alguma vez gostaste de alguém? Nunca te vi com ninguém.
A IRMÃ Não é da tua conta.
O HOMEM Então mete-te na tua vida.
A IRMÃ É a minha irmã.
(Pausa.)
O HOMEM (Para a Empregada.) “O que é que fazes aqui?” Tive de perguntar, era estranho.
A IRMÃ Estou em trabalho.
O HOMEM Trabalho?
A EMPREGADA Estamos todos.
A IRMÃ Vou fazer um anúncio.
O HOMEM Um anúncio? Aqui? (Para a empregada.) Disse-me que vinha filmar um anúncio aqui.
A IRMÃ Sim, umas filmagens.
A EMPREGADA Eu vi, pois foi, começaram a montar o estaminé ontem. Parece que é um anúncio qualquer de um perfume. Pagaram-me para usar aqui a esplanada. Não pagam mal.
O HOMEM (Para a Empregada.) Mas ela agora era actriz? Sempre trabalhou como delegada comercial e agora era actriz?
A IRMÃ Claro que não.
O HOMEM Como é que conseguiste isso?
A IRMÃ Fiz um teste e aceitaram-me. Não é preciso ser actriz.
O HOMEM Ganha-se bem? (Para a Empregada.) Disse-me que estava a ganhar bem.
A IRMÃ Não é mau.
A EMPREGADA A publicidade movimenta muito dinheiro.
O HOMEM Pelo menos viaja-se. (Para a mulher.) E é o quê?
A IRMÃ É um anúncio de um perfume para mulheres.
O HOMEM E cheira bem?
A IRMÃ Sei lá. Ainda nem vi o perfume.
A EMPREGADA Parece que é um anúncio de perfumes. Cheira muito bem. Até me ofereceram uma amostra.
(Pausa.)
O HOMEM (Para a Empregada.) A vida tem coisas…Eu acho que vou andando. Obrigado pela conversa.
A IRMÃ Pensa melhor, vocês gostam muito um do outro.
O HOMEM Já não. Acabou.
(Pausa.)
A EMPREGADA Está bem? Precisa de alguma coisa?
O HOMEM Obrigado. Tenho de aguentar.
A IRMÃ Adeus. Fica bem.
Ao leventar-se O HOMEM deixa cair um envelope com fotografias.
A EMPREGADA (Apanhando o envelope.) Deixou cair isto. Fotografias da família?
O HOMEM Mais ou menos, da minha mulher. Ex-mulher.
A EMPREGADA São de Portugal?
O HOMEM Sim.
A EMPREGADA Posso ver?
O HOMEM Força.
A EMPREGADA Peço desculpa mas gosto muito de fotografias. Curiosidade. (vê) Muito bonita a fotografia! Duas senhoras. Esta não é a de há bocado, que esteve a falar consigo.
O HOMEM É, é.
A EMPREGADA E a outra, quem é?
(Escuro.)
3.
Luz. Na auto-estrada a caminho do Porto. Dois carros.
A MÃE Quarenta anos. Como estarás? Será que ainda és o mesmo que eu conheci, que me escreveu aquelas cartas todas?
O HOMEM Estás boa!
A MÃE Que susto!
O HOMEM Olá!
A MÃE Jorge?!?
O HOMEM Pois é!
A MÃE Que fazes aqui?
O HOMEM Queria falar contigo.
A MÃE Mas tu estás morto! Como é que?...
O HOMEM Adivinha.
A MÃE Meu Deus, és o fantasma do Jorge!
O HOMEM Como quiseres.
A MÃE És, és. És o fantasma do Jorge.
O HOMEM Fala baixo, concentra-te, senão desapareço.
A MÃE Voltaste?
O HOMEM Quem me dera.
A MÃE Mas estás como quando te conheci.
O HOMEM Foi a minha melhor fase. Mil novecentos e setenta e três.
(Pausa.)
A MÃE O que é que queres?
O HOMEM Onde é que vais?
A MÃE (nervosa) Eu? A lado nenhum…
O HOMEM Vá lá, não sejas mentirosa.
A MÃE Vou viajar.
O HOMEM Pois, eu sei, para onde?
A MÃE Não sei.
O HOMEM (rindo) Vais viajar e não sabes para onde?
A MÃE Não.
O HOMEM (dá uma gargalhada)
(Pausa.)
A MÃE Vou para a Holanda.
O HOMEM Pois, eu sei. Fazer o quê?
A MÃE Passear.
O HOMEM Sozinha?
A MÃE Sim.
O HOMEM A sério?
A MÃE Sim.
O HOMEM E queres que eu acredite?
A MÃE Sim.
O HOMEM Vá lá, não tenhas medo, diz a verdade.
A MÃE Mas eu estou a dizer a verdade.
(Pausa.)
A MULHER -POLÍCIA Que temporal! Agora amainou, mas… não se vê nada. Continua a acelerar, agora ainda mais. Se calhar vou mandá-la parar e dizer-lhe que abrande.
O HOMEM Não, não estás a dizer a verdade.
A MÃE Estou sim.
O POLÍCIA (Para A MULHER -Polícia) Deixa lá. Não vamos sair do carro outra vez.
A MULHER -POLÍCIA Acordaste? Bons sonhos?
A MÃE Estou muito cansada.
O POLÍCIA Não estava a dormir, só passei pelas brasas. (Curta pausa.) Quem me dera estar em casa, na caminha. Se calhar está alguém à espera dela no aeroporto, para ficar com o carro.
A MULHER -POLÍCIA Achas? Não sei. (Curta pausa.)
Eu também, estava bem era em casa.Com este frio. Tomava um banho e depois, caminha.
O POLÍCIA Deixa lá, quando morrermos teremos muito tempo para estar deitados.
(Pausa.)
Posso fazer-te uma pergunta?
A MULHER -POLÍCIA O quê?
O POLÍCIA Às vezes não te sentes sozinha?
A MULHER -POLÍCIA Como?
A MULHER 2 Sinto-me, sinto-me sozinha, há quase dois anos, sinto-me sozinha.
O POLÍCIA Estás divorciada há dois anos, não é?
A MULHER -POLÍCIA E...?
O POLÍCIA Sentes-te sozinha.
A MULHER -POLÍCIA Não.
O POLÍCIA Não sentes falta de alguém?
A MULHER -POLÍCIA Não.
O POLÍCIA (Para A MULHER 2) Posso fazer-te uma pergunta?
A MÃE O quê?
O HOMEM Vais ter com ele, não é?
A MÃE Com quem?
O HOMEM Não me faças perder tempo, não posso estar aqui uma eternidade. Mas não sentes falta de um homem?
A MÃE Não percebo.
A MULHER -POLÍCIA Para que é que eu havia de querer um homem?
O POLÍCIA Não me digas que gostas de estar sozinha?
A MULHER -POLÍCIA Prefiro.
O POLÍCIA Preferes? (Para A MÃE) Preferes ir ter com quem vais ter do que estar sozinha.
A MÃE Ò Jorge! Eu…
A MULHER -POLÍCIA Ao menos não tenho chatices.
O HOMEM Não tenhas medo, não te posso impedir de ir, só quero saber uma coisa.
A MÃE O quê?
O HOMEM Quando fomos casados, pensavas nele?
A MÃE Em quem?
O HOMEM Pára! Diz a verdade.
(Curta pausa.)
A MÃE Sim.
(Curta pausa.)
O HOMEM Mas gostavas de mim?
A MÃE Sim.
(Pausa.)
O POLÍCIA Não tens frio?
A MULHER -POLÍCIA O carro tem ar condicionado.
O POLÍCIA Oh! Estás a gozar. Sabes o que quero dizer. E pensavas nele porquê?
A MÃE Só de vez em quando.
O HOMEM Estavas farta de estar comigo?
A MÃE Claro que não.
O POLÍCIA Vou perguntar: o que é que achas de mim?
A MULHER -POLÍCIA Outra vez?
O HOMEM Responde. Porquê?
A MÃE Porque gostava dele, pronto, mas isso não tinha nada a ver connosco.
O HOMEM Não tinha a ver connosco? Estavas comigo, gostavas de outro e não tinha a ver connosco?
A MULHER -POLÍCIA Agora de há uns tempos para cá resolveste fazer-me essa pergunta. Estás com algum problema? Falta de confiança? Não somos amigos?
A MÃE Sentia-me sozinha. Nunca estavas em casa.
O HOMEM Mas eu tinha de trabalhar.
A MÃE Pois, era isso, tinhas de trabalhar.
O HOMEM O que é que querias que fizesse?
A MÃE Estivesses comigo. Já não aguentava, tantas noites sozinha. Já nem eramos amigos. Duas pessoas que por acaso viviam na mesma casa.
A MULHER -POLÍCIA Não tivémos já esta conversa?
O POLÍCIA Sim…mas…
A MULHER -POLÍCIA E o que é que eu respondi?
(Pausa.)
O POLÍCIA (São encadeados por umas luzes de outro carro.) Cuidado! (Salta para a frente e fica ao lado do lugar no carro dA MULHER .)
A MULHER -POLÍCIA Meu Deus… que susto!
O POLÍCIA Estás com os máximos!
A MULHER -POLÍCIA Pois estou.
O POLÍCIA Distraída.
A MULHER -POLÍCIA Que susto!
O POLÍCIA Estás bem?
A MÃE Jorge? Como é que é a vida depois da morte?
O HOMEM Não vês que isso é como se perguntasses como é que é o ontem depois do hoje, ou como é que é tropeçar depois de cair. Não mudes de assunto. Amavas-me ou não?
A MÃE Sim, desculpa.
O HOMEM E a ele?
A MÃE Gostava dele.
O HOMEM Mais do que gostavas de mim?
A MÃE Não.
O HOMEM Mas vais ter com ele.
A MÃE Vou.
O HOMEM Porquê? (São encadeados por umas luzes de outro carro.) Cuidado!
A MULHER 2 Meu Deus, que susto!
O HOMEM Estás com os máximos!
A MÃE Pois estou.
O HOMEM Não te distraias. Concentra-te.
A MÃE Vou abrandar
A MULHER -POLÍCIA É melhor abrandar. Podes dormir se quiseres.
(Pausa.)
A MÃE Não consigo estar sozinha e eu amei-o também.
O HOMEM Amavas os dois?
A MÃE Antes de te conhecer, depois esqueci.
O HOMEM E agora lembraste-te.
A MÃE Sim.
O HOMEM Mas eras feliz comigo?
A MÃE Muito.
(Pausa.)
O HOMEM Então porque é que estás a fazer isto.
A MÃE Quero continuar a minha vida. Estou cansada.
O HOMEM Com ele?
A MÃE Não sei, talvez.
O HOMEM É bom. Ter opções.
A MÃE Mas tu estás morto.
O HOMEM Só há uma semana.
A MÃE Uma semana?
O HOMEM Não é?
A MÃE Não. Já passou bem mais de uma semana!
O HOMEM Quanto tempo?
A MÃE Mais de um ano.
O HOMEM O quê?
A MÃE Para mim morreste no Verão, quase há dois anos, quando te deitaste e fechaste os olhos.
O HOMEM Dois anos? Como é que…? Meu Deus, perdi a noção do tempo!
A MÃE Se calhar é normal, morreste.
O HOMEM Não sabia que era assim.
(Pausa.)
A MULHER – POLÍCIA Sete e um quarto.
O POLÍCIA Estás bem?
A MULHER – POLÍCIA Sim, foi só um susto.
O POLÍCIA Agora está a abrandar, já deve estar cansada.
A MULHER – POLÍCIA É decidida. Fazer uma viagem assim.
O POLÍCIA Se calhar vai ter com alguém importante para ela.
A MULHER – POLÍCIA Achas?
O POLÍCIA Sim. Alguém que se calhar está a morrer.
A MULHER – POLÍCIA Estás a inventar.
O POLÍCIA Talvez. Viste como ficou nervosa quando perguntámos quem era o dono do carro?
A MULHER– POLÍCIA Mas ela disse que era o marido. “ É do meu marido.”
O POLÍCIA Mas estava nervosa. Se calhar matou-o e está a fugir.
A MULHER – POLÍCIA Estás doido.
O POLÍCIA Porquê?
A MULHER – POLÍCIA Vês muitos filmes. Está a fugir mas de outra coisa.
O POLÍCIA Esperemos que não seja da polícia. (ri-se)
A MULHER – POLÍCIA Que piada.
O POLÍCIA Se matou alguém e está a fugir, é como naqueles filmes do Hitchcok
A MULHER – POLÍCIA É, e há um corpo cortado aos bocados dentro de sacos de plástico no porta-bagagens.
O POLÍCIA Como é que sabes?
A MULHER – POLÍCIA Elementar, meu caro Watson.
O POLÍCIA Boa! Tens jeito.
A MULHER – POLÍCIA Vou para detective.
(No outro carro.)
A MÃE Estou só a continuar a minha vida. Nada de mais. Estou a retomar a minha vida. A seguir o caminho que mudou há quarenta anos atrás, quando ainda não existias, como agora que não existes. Não que fosse este o certo ou o errado, ou o outro, não. Não que fosse este o que no fundo sempre quis, nada disso. Foi o que quis e agora é o que quero.
(Pausa.)
O POLÍCIA E então, não me dizes?
A MULHER – POLÍCIA Não te digo o quê?
O POLÍCIA Aquilo que eu perguntei.
A MULHER – POLÍCIA O que é que foi?
O POLÍCIA Já te esqueceste? Basta olhares para mim.
A MULHER – POLÍCIA Não posso olhar, estou a conduzir.
O POLÍCIA Imagina que me vias pela primeira vez. O que é que achavas?
A MULHER – POLÍCIA Achava que eras parvo.
O POLÍCIA Não és capaz de dizer nada?
A MULHER – POLÍCIA Acho que és simpático, pronto.
O POLÍCIA Simpático, como?
A MULHER – POLÍCIA Acho que és um bom homem,
O POLÍCIA O que é isso?
A MULHER – POLÍCIA Acho que és divertido, um bocado palerma.
O POLÍCIA Palerma?
A MULHER – POLÍCIA És engraçado.
O POLÍCIA E como homem.
A MULHER – POLÍCIA Já me estás a enervar.
A MÃE Podia ter sido ao contrário, pois podia. Podia ter continuado contigo e o resto nunca teria existido, para mim, seria um dia de chuva, bonito como os dias de chuva, bonito e triste ao mesmo tempo, bonito como se toda a vida fosse um só dia.
O POLÍCIA E se eu fosse o Paulo Pires?
A MULHER – POLÍCIA O quê!?
O POLÍCIA Aí era diferente, já dizias que era um bonzão, um pão, não era?
A MULHER – POLÍCIA Não.
O POLÍCIA Eu sei que era.
A MULHER – POLÍCIA Achas que dizia isso ao Paulo Pires?
O POLÍCIA Se o conhecesses. Ou então se fosse um daqueles giros dos anúncios, os actores americanos, o Brad Pitt, por exemplo.
A MULHER – POLÍCIA És mesmo parvo.
O POLÍCIA Então quem? Já sei, o Tony Carreira.
A MULHER – POLÍCIA (bate-lhe) Estúpido!
O POLÍCIA Cuidado! Olha o volante!
(Pausa.)
A MULHER – POLÍCIA Adoro o Tony. É tão charmoso.
(Riem.)
A MULHER – POLÍCIA Olha lá, ando a receber uns sms’s com poemas, não és tu pois não?
O POLÍCIA Eu? Que piroseira! Achas?
A MULHER – POLÍCIA Se fosses dizias, não era?
O POLÍCIA Claro… Mas não fui eu, que foleirice.
A MULHER – POLÍCIA Por acaso até são bem bonitos.
O POLÍCIA Então fui eu.
A MULHER – POLÍCIA Mas que estúpido!
(Pausa.)
O POLÍCIA Já falta pouco para o subsídio de Natal. Já decidiste onde vais gastar?
A MULHER – POLÍCIA Estava a pensar em ir visitar a minha irmã à Alemanha.
O POLÍCIA Ainda está no mesmo emprego?
A MULHER – POLÍCIA Sim. Ainda trabalha no café do aeroporto.
O POLÍCIA Ganha mais do que nós, não é?
A MULHER – POLÍCIA Quase o dobro. Queres vir comigo?
O POLÍCIA A sério?
A MULHER – POLÍCIA Se quiseres.
O POLÍCIA Mas, assim como amigo?
A MULHER – POLÍCIA Não, como inimigo. O que é que achas?
O POLÍCIA Vou pensar.
A MULHER – POLÍCIA Ok.
A MÃE Estou tão cansada. Passou já muito tempo. Trouxe as fotografias que me mandaste, as cartas. Guardei-as, sim guardei-as, nem sei porquê. Nunca as mostrei. O que é que achas que isso quer dizer? Que ansiava pelo nosso reencontro? Que, no fundo, tinha esperanças? Claro que não, não era por isso. Isso significaria que não vivia e eu vivi, vivi sempre.
(Pausa.)
O POLÍCIA Juro que não percebo.
A MULHER – POLÍCIA O quê?
O POLÍCIA Estás sempre a dar-me para trás e agora convidas-me para ir contigo à Alemanha.
A MULHER – POLÍCIA O que é que tem?
O POLÍCIA Isso quer dizer que gostas de mim.
A MULHER – POLÍCIA Mas eu nunca disse que não gostava.
O POLÍCIA Como homem?
A MULHER – POLÍCIA Ok, é melhor esquecermos esta conversa, eu vou sozinha.
O POLÍCIA Não, não, podemos ir.
A MULHER – POLÍCIA Está a levantar-se nevoeiro, é melhor aproximarmo-nos mais do carro.
O POLÍCIA Sim.
(Pausa.)
A MÃE Pode amar-se mais do que uma pessoa na vida. Vivi no dia em que nos conhecemos, naquele chuvoso mês de Outubro, no primeiro beijo que demos. Vivi nas coisas que me contaste, nas fotografias que tirámos, nos passeios de carro. Na música, lembras-te da música? E depois vivi nos quarenta anos sem ti, vivi o melhor que se pode viver.
O POLÍCIA Que idade tem a tua irmã?
A MULHER – POLÍCIA Porquê?
O POLÍCIA Curiosidade.
A MULHER – POLÍCIA É mais nova do que eu.
O POLÍCIA É parecida contigo?
A MULHER – POLÍCIA Não.
O POLÍCIA É mais bonita?
A MULHER – POLÍCIA É muito bonita.
O POLÍCIA Mais do que tu? Difícil.
A MULHER – POLÍCIA Cuidadinho.
O POLÍCIA Podíamos ir de carro.
A MULHER – POLÍCIA Para onde?
O POLÍCIA Para a Alemanha.
A MULHER – POLÍCIA Estás doido. São para aí três dias seguidos.
O POLÍCIA Pediamos quatro dias, com os fins-de-semana e os feriados…
A MULHER – POLÍCIA Isso é no Verão, agora com este frio.
O POLÍCIA Então, qual era o problema?
A MULHER – POLÍCIA E em que carro? Achas que o meu carro aguentava até lá?
O POLÍCIA Podia pedir o do meu pai, é uma carrinha.
A MULHER – POLÍCIA Não, é melhor de avião, até é mais barato.
Vou comprar o bilhete depois de amanhã, pela net. Tens de decidir.
O POLÍCIA Vou pensar melhor.
A MÃE Podemos comprar uma casa no sul de Itália, se quiseres, ou é melhor no sul de França. Podemos acabar a nossa vida juntos. Vêmos o pôr-do-sol, a coisa mais linda que já vi. De manhã vou ao pão de bicicleta e tu ficas a regar as flores da estufa. Podes cantar e eu escrevo um livro para crianças. Depois jantamos num restaurante daqueles da Juan les Pins. E bebemos vinho.
(Pausa.)
A MULHER – POLÍCIA Achas que ainda falta muito?
O POLÍCIA Para aí uns 8 km.
A MULHER – POLÍCIA falando ao intercomunicador Alô. Aqui viatura 0143. Estamos na A1. Sentido Norte. Vamos voltar depois da circunvalação. 8h30 estaremos no posto.
O POLÍCIA Não disseste onde íamos.
A MULHER – POLÍCIA Acho que é melhor não.
O POLÍCIA Sim.
A MULHER – POLÍCIA Não ia dizer: “olhe o meu colega teve a ideia de ir acompanhar uma senhora que não tem luzes na viatura, até ao Sá Carneiro, por motivos de segurança.”
O POLÍCIA Pois é melhor não, se bem que tu concordaste.
A MULHER – POLÍCIA Não vejo grande problema. Uma questão de 3 ou 4 kms a mais.
O POLÍCIA Este carro ainda não tem GPS, senão viam onde é que estávamos.
A MULHER – POLÍCIA Pois.
O POLÍCIA Pois. Quanto é o bilhete?
A MULHER – POLÍCIA Não chega a 150 euros.
O POLÍCIA E depois durmo onde?
A MULHER – POLÍCIA Na rua.
Dormes no sofá, eu durmo no quarto de hóspedes e a minha irmã dorme no quarto dela com o marido e a bébé.
O POLÍCIA É casada? Lá se foram as minhas esperanças.
A MULHER – POLÍCIA Mesmo que não fosse, não tinhas esperanças.
O POLÍCIA Porquê?
A MULHER – POLÍCIA Porque és parvo.
O POLÍCIA Obrigado.
A MULHER – POLÍCIA Nada. Estamos aqui para o servir.
(Pausa.)
O POLÍCIA És tia. Nunca me tinhas dito.
A MULHER – POLÍCIA Pois é.
O POLÍCIA Como se chama.
A MULHER – POLÍCIA Laura, é uma menina.
O POLÍCIA E tu quando é que tens filhos?
A MULHER – POLÍCIA Agora, já é difícil.
O POLÍCIA Não é nada. Há muitas mulheres que têm filhos quase aos 50.
A MULHER – POLÍCIA Quantas conheces?
O POLÍCIA Nenhuma.
A MULHER-POLÍCIA (Aponta para a frente.) Olha, está a virar. É por ali?
O POLÍCIA É. Faz o sinal.
(Escuro.)
4.
Luz. No consultório. A luz diferente do acto I.
A PSICÓLOGA Confesso que fiquei atónita com essa revelação. Nunca tinha ouvido uma dessas e já trabalho há muitos anos… diz-me, sempre suspeitaste disso ou foi um choque?
A MULHER Um grande choque.
A PSICÓLOGA E o teu marido? Têm falado?
A MULHER Não. Quer dizer, tenho falado com ele mas não está lá, só na minha cabeça. Aparece-me às vezes, como um fantasma. Aproveito para lhe dizer das boas.
A PSICÓLOGA Um fantasma? E com a tua irmã?
A MULHER Esqueci.
A PSICÓLOGA Mesmo?
A MULHER Se gostam um do outro eu é que estou a mais.
A PSICÓLOGA Quanta frieza.
A MULHER É a realidade.
A PSICÓLOGA Tens falado com ela?
A MULHER Não.
A PSICÓLOGA Mas vais falar?
A MULHER Se acontecer, não sou muda.
A PSICÓLOGA A tua situação é muito complicada. O melhor que tens a fazer é tentar esquecer e resolver o caso com a tua irmã, mesmo que seja discutir. Estou aqui para ajudar, podemos começar com medicação, aumentar as sessões, precisas de apoio.
A MULHER Sabe uma coisa? Acho que acordei. Se quer saber, até acho que me fez bem o que aconteceu, o que vi. Sinto que de repente cai em mim, acho que no fundo sempre soube mas não quis acreditar, se quer que lhe diga, voltando atrás, houve muitas vezes em que os vi em situações um pouco comprometedoras, parecia tudo uma brincadeira…
A PSICÓLOGA É como se de repente soubesses exactamente o que queres, como queres e quando? Também senti isso há muito tempo atrás, depois de muitas dúvidas, quando descobri do que e de quem gostava.
A MULHER Sinto-me forte, é como se o meu corpo ficasse cheio de força e a minha cabeça clara como nunca. O meu marido deixou-me e descobri que tem um caso com a minha irmã mas não importa, é seguir em frente. Se bem que seguir em frente pode ser matar um dos dois, ou odiá-los para sempre. Mas o que é que isso interessa? Não interessa nada, o que interessa é seguir em frente, devagar, dando atenção aos pormenores. Mas quais pormenores? A saliva trocada nas línguas dos dois? Ou a minha mãe ter-se ido embora sem dizer nada e para sempre, talvez? Ou afinal não estar grávida e ter sido tudo uma última tentativa de manter a minha relação? Quais pormenores? Ainda bem que tudo isto aconteceu, assim livrei-me de todos e posso finalmente viver a minha vida como sempre quis.
(Entra a mãe.)
A MÃE Eu não sei se volto, filha. Se calhar não. Se calhar não precisam de mim e eu não preciso de vocês. Quero viver a minha vida, o que me resta. Desculpa, dá beijos à tua irmã, e ao meu futuro neto. Será um rapaz ou uma rapariga?
A MULHER O que é que isso te interessa? Foste-te embora. Então fica por lá. Esquece-me.
A MÃE Talvez volte um dia. O meu neto. Vou ter vontade de o conhecer. Mas talvez volte acompanhada. Não te importas pois não? Eu sempre amei o teu pai, sabes isso.
A MULHER Diz-lhe isso então. Diz que o amas. Pode ser que lhe faça bem.
A MÃE Mas ele já não ouve, está morto.
A MULHER Não, não digas que está morto. Está vivo lá naquele hospital onde o deixaste sem dizer uma palavra, sem reconhecer nada nem ninguém, de olhos fixos no vazio.
A MÃE Ele está morto. (sai)
A PSICÓLOGA Não devias ter inventado a história da gravidez. É uma coisa muito séria para brincar.
A MULHER Mas eu não sabia. Só soube na ecografia. Era tudo imaginado, “gravidez histérica”, nem sabia que isso existia.
(entra o marido)
O HOMEM Mas ias ter o filho ou não?
A MULHER E tu querias ou não?
O HOMEM Vês. Não estou para isto, aliás já nem estou cá, talvez um dia te venha fazer uma última visita e dar-te um beijo, o último beijo, o beijo da despedida. (sai)
A PSICÓLOGA A relação com a tua mãe, como está?
E com a tua irmã? Não vais falar com ela, perguntar-lhe o que tens de perguntar?
AMULHER Eu não tenho irmã nem mãe. Não sabia? Sou filha única, única e orfã.
(entra a irmã)
A IRMÃ Não digas isso. Porque é que tem de ser assim? Não podíamos voltar a ser como quando éramos crianças? Ele não significa nada para mim. Não quer dizer nada foi uma coisa que não aconteceu, um acidente.
A MULHER Eu quero perdoar-te mas não consigo olhar para ti, a tua cara. Quando te vejo é como se o visse também. A beijar-te e a beijar-me ao mesmo tempo. É como se vos visse juntos, um só, misturados um no outro, a olhar para mim como se eu não existisse.
A IRMÃ Perdoa-me. (sai)
A PSICÓLOGA A relação familiar deve ser mantida, A família é muito importante.
Devias fazer um esforço, apesar de tudo.
(Pausa.)
A MULHER Talvez, mas acho que já não quero.
A PSICÓLOGA Telefona-lhes, combina um jantar.
A MULHER Não sei se será uma boa ideia.
A PSICÓLOGA Aproveita para lhes dizeres o que sentes.
A MULHER Não estou para isso.
A PSICÓLOGA Devias fazer um esforço.
A MULHER Não sei se consigo.
A PSICÓLOGA Claro que consegues, vais ver.
(Pausa.)
A PSICÓLOGA Queres terminar?
A MULHER Sim.
A PSICÓLOGA Vamos então rever os objectivos para o próximo dia.
5.
No carro dos polícias. Ouve-se música. São os AC/DC, Highway to hell.
A MULHER-POLÍCIA Mas o que é isto?
O POLÍCIA O que é isto?
A MULHER-POLÍCIA Que música é esta?
O POLÍCIA “Isto”, são os AC/DC. Não me digas que não conheces?
A MULHER-POLÍCIA Não.
O POLÍCIA Será possível? Os AC/DC?
A MULHER-POLÍCIA E porque é que havia de conhecer?
O POLÍCIA O Bon Scott? O Angus Young? O guitarrista mais frenético da história do rock?
A MULHER-POLÍCIA O que é que tem?
O POLÍCIA Não sentes nada?
A MULHER-POLÍCIA Não.
O POLÍCIA Não sentes vontade de largar tudo e meter-te à estrada?
A MULHER-POLÍCIA Na estrada estou eu. Meter-me à estrada e fazer o quê?
O POLÍCIA Sei lá. Viver no fio da navalha… ir sempre em frente, a abrir, sem medo de nada, sempre a rasgar.
A MULHER-POLÍCIA Sempre a rasgar? Por amor de Deus.
O POLÍCIA Iá, on the road.
A MULHER-POLÍCIA Mas tu estás a ficar senil? Que idade é que tu tens? Agora deste em beatnick?
O POLÍCIA Isto não é música beatnick e não interessa a idade, interessa é o espírito. És sempre tão controlada?
A MULHER-POLÍCIA Eu? Controlada? Vê-se mesmo que não me conheces.
O POLÍCIA Não me digas que és uma rocker?
A MULHER-POLÍCIA Não, não sou uma rocker, mas não sou assim tão controlada.
O POLÍCIA Nunca ouviste rock’n roll?
A MULHER-POLÍCIA Eu era mais punk.
O POLÍCIA Mas agora já não queres saber.
A MULHER-POLÍCIA Agora ouço outras coisas.
O POLÍCIA Ah, é? O quê?
A MULHER-POLÍCIA Sei lá, outras coisas.
O POLÍCIA Dá um exemplo.
A MULHER-POLÍCIA Sei lá.
(Pausa.)
A MULHER-POLÍCIA Podes tirar isso, ò rocker?
O POLÍCIA Ainda não acabou, ò beatnick.
A MULHER-POLÍCIA E como é que se chama, a música?
O POLÍCIA Highway to hell.
A MULHER-POLÍCIA Auto-estrada para o inferno?
O POLÍCIA Boa, sabes inglês!
A MULHER-POLÍCIA Ah, ah, nem tu sabes o quanto! E fala de quê?
O POLÍCIA De que não é preciso nenhuma razão para cair na perdição…que vamos todos para o inferno mas os nossos amigos vão estar lá também… E não há sinais de trânsito, nem limite de velocidade, nem paragens. É a terra prometida, o rock, o sucesso, mãe olha para mim, lá vou eu. Não se pára na estrada para a perdição.
A MULHER-POLÍCIA Mas tu estarás doente?
O POLÍCIA Não, estou vivo.
(Pausa.)
A MULHER-POLÍCIA Mas tira, estamos a chegar.
O POLÍCIA Não tenho nada de beatnick aqui no telemóvel…
A MULHER-POLÍCIA Não me apetece ouvir música. Olha, olha, está a pegar no telemóvel? Eu não acredito!
O POLÍCIA (Dá uma gargalhada.) Mais uma multa.
A MÃE, a conduzir, pega num telemóvel e marca um número.
A MÃE Estou, sou eu.
A PSICÓLOGA Então, onde estás?
A MÃE Estou a caminho.
A PSICÓLOGA Da Holanda?
A MÃE Sim. E a minha filha, como está?
A PSICÓLOGA Ainda não sabes?
A MÃE O quê?!
A PSICÓLOGA Descobriu que a irmã tem um caso com o marido.
A MÃE Contou-te isso?
A PSICÓLOGA É verdade.
A MÃE Como é que ela está?
A PSICÓLOGA Por estranho que pareça, melhor, mas agora não pode ficar sozinha, não sei o que poderá acontecer, pode mudar de um dia para o outro.
A MÃE Eu já sabia.
A PSICÓLOGA Já sabias?
A MÃE Sim, a irmã tinha-me confessado.
A PSICÓLOGA E o que é que fizeste?
A MÃE O que é que fiz? Nada, ou melhor, estou a fazer agora, vou-me embora, já não aguento mais.
A PSICÓLOGA Vais fugir?
A MÃE Pensas que nos poucos anos que me restam quero mais preocupações? Já são crescidas, resolvam-se, não tenho tempo para histórias de miúdas.
A PSICÓLOGA Estás maluca?
A MÃE Se calhar, já não quero saber.
Neste momento vou fugir e de ti também, estou farta destas nossas conversas. Se queres saber mais pergunta-lhe a ela.
A PSICÓLOGA Devias falar com a tua filha. Voltar atrás.
A MÃE Para quê? Achas que é possível voltar atrás? Não temos dezoito anos. O amor é assim. Se gostam um do outro, dos dois ou dos três, não me interessa.
A PSICÓLOGA Não, isso não é verdade, gostas delas.
A MÃE Claro. Quando se ama é para sempre.
E tu? Já alguma vez gostaste de alguém? Estás com muita gente mas sempre sozinha?
A PSICÓLOGA Não é da tua conta.
A MÃE Então mete-te na tua vida.
A PSICÓLOGA São as tuas filhas.
A MÃE Vou desligar, adeus.
(Pausa.)
A PSICÓLOGA (Para si.) As folhas vão cair, como caem todos os anos no Outono, na mesma altura.
III
Numa casa de família.
O HOMEM Olá, Mãe.
A MÃE 2 Filho! (abraça-o, cumprimentam-se)
O HOMEM Então, como vão as coisas?
A MÃE 2 Está tudo bem. Estava ali na cozinha e ouvi tocar, pensava que era o teu pai.
O HOMEM O pai, foi à rua?
A MÃE 2 (num tom irónico) Foi dar uma volta.
O HOMEM Está tudo bem?
A MÃE 2 Está.Trazes malas! Mas não era só para o Verão?
O HOMEM Vim-me embora mais cedo, foi.
A MÃE 2 Chateaste-te?
O HOMEM Fartei-me. Aquilo era uma porcaria. Não valia a pena.
A MÃE 2 Vais voltar ao teu trabalho?
O HOMEM Não, agora acho que já não dá.
A MÃE 2 Então e agora?
O HOMEM Não sei.
(Pausa.)
A MÃE 2 Queres que te faça o jantar? Tenho ali umas costeletas…
O HOMEM Não é preciso, não se incomode.
A MÃE 2 Não… posso fazer um arroz como tu gostas, também tenho morangos. Pousa
aí as coisas.
O HOMEM E o pai, já jantou?
A MÃE 2 Já. Não comeu quase nada e saiu logo.
(Pausa.)
A MÃE 2 Senta-te.
O HOMEM (senta-se, tapa a cara)
A MÃE 2 O que é?!?!
O HOMEM Acho que vou ficar aqui por uns tempos.
A MÃE 2 Chatearam-se?
O HOMEM Pois.
A MÃE 2 Vocês andam sempre nisso.
O HOMEM Mãe, agora não é a brincar, vou mesmo ficar cá.
A MÃE 2 Já é a terceira vez. Só estou a dizer…
O HOMEM Agora vou mesmo ficar cá.
(Pausa.)
A MÃE 2 Não estás melhor aqui? Estás melhor aqui. Se nunca tivesses saido de casa se calhar podias ter juntado dinheiro, e agora já tinhas uma casa tua.
O HOMEM Não, eu agora vou arranjar outro emprego e alugo uma casa.
A MÃE 2 Para quê? Não estás melhor aqui? Ao menos não gastas dinheiro.
O HOMEM Não vou ficar aqui para sempre, é só até juntar algum dinheiro e vou-me embora.
A MÃE 2 Está bem.
(Pausa.)
A MÃE 2 Queres que te faça uma salada?
O HOMEM Pode ser.
A MÃE 2 Mas chatearam-se porquê.
O HOMEM Chateámo-nos.
A MÃE 2 Ela continua a beber?
O HOMEM Sim, mas não foi por isso.
A MÃE 2 Podias ter comprado um carro, nem carro tens.
O HOMEM Não preciso de um carro. (levanta-se) Vou ver o meu quarto.
A MÃE 2 O jantar está quase pronto.
O HOMEM Não demoro.
A MÃE 2 Pus uns móveis novos, se não gostares depois tiram-se, foi a tua tia que me deu. É só uma cómoda daquelas do IKEA.
O HOMEM Eu logo vejo. (Sai. A mãe começa a trautear uma canção.)
(No quarto.Longa Pausa. O Homem pousa a mala, abre-a e tira a fotografia. De repente vê A IRMÃ sentada na cama.)
O HOMEM Tu?
A IRMÃ Anda.
O HOMEM O quê?
A IRMÃ Anda para aqui.
O HOMEM Tu?
A IRMÃ Não queres? Não queres deitar-te ao pé de mim?
O HOMEM Sai. Sai da minha cabeça.
A IRMÃ Amo-te.
O HOMEM Sai.
A IRMÃ Amo-te desde a primeira vez que te vi.
O HOMEM Não é verdade.
A IRMÃ Claro que é verdade, ou pensas que nos beijámos por acaso? Não pensavas nisso? Não estavas sempre a pensar nisso?
O HOMEM Ela é a tua irmã.
A IRMÃ E depois? Não sou mulher também? Não és homem também. Não podemos?
O HOMEM Deixa-me em paz. Desaparece.
A IRMÃ Nunca vou desaparecer. Não vês que já não podemos voltar atrás. Agora já está, já aconteceu.
O HOMEM O que é que aconteceu? Não aconteceu nada, foi só um beijo. Foi só um beijo e eu estava bêbedo.
A IRMÃ Mas não vês que não foi só um beijo. Achas que para a minha irmã foi só um beijo, achas que para toda a gente foi só um beijo? Nunca sentiste como era desesperante quando estávamos só os dois, como nos ríamos nervosos? Não sentias que os nossos corpos se aproximavam sozinhos, que as nossas respirações misturavam-se no ar e ficavam uma só?
O HOMEM Que disparates estás para aí a dizer? Eu amo a tua irmã, nunca te amei, quando estive contigo era como se eu fosse outra pessoa.
A IRMÃ Não sentias como desejávamos escondermo-nos e desaparecer, ficar só os dois longe de todos? Quando estavas com ela, só pensavas em mim, eu sei. Anda cá.
O HOMEM (Aproxima-se dela e beijam-se, um beijo demorado. De repente, o filho sai disparado do quarto e regressa para a cozinha.)
A MÃE 2 Vou pôr a mesa. Então viste?
O FILHO O quê!!
A MÃE 2 A cómoda, viste?
O FILHO Ah, sim, sim, vi. Não é feia.
A MÃE 2 Se quiseres ficamos com ela ou posso pô-la noutro sítio.
O FILHO Deixe estar, eu depois vejo.
A MÃE 2 Está bem.
(Pausa.)
A MÃE 2 Não fiques triste, isso passa.
O FILHO (chora) Eu sei.
A MÃE 2 (abraçando-o) Oh, meu filho, meu rico filho.
Entra a IRMÃ.
A IRMÃ Boa noite. A porta estava aberta.
A MÃE 2 Olá, estás boa?
O HOMEM O que é que estás aqui a fazer?
A MÃE 2 Deixei a porta aberta outra vez, se o teu pai sabe.
A IRMÃ Vim por causa da minha irmã.
O HOMEM Eu não vou voltar
A IRMÃ Sim eu sei.
O HOMEM Diz-lhe isso
A MÃE entrando Já jantaste?
A IRMÃ Já, obrigada.
AMÃE Mas senta-te.
A IRMÃ Deixe estar.
O HOMEM E como é que ela está?
A IRMÃ (Pausa.) Aconteceu uma coisa. Ela está no hospital.
O HOMEM O quê? Mas, está bem?
A IRMÃ Sim, não é isso, mais ou menos, a mãe teve um acidente de carro a caminho do aeroporto. Dois polícias chamaram a ambulância.
A MÃE Como é que ela está?
O HOMEM Mas iam as dua no carro?
A IRMÃ Não. A minha irmã foi para lá e disse-me para te vir buscar.
A MÃE 2 Oh, meu Deus!
(Pausa.)
A IRMÃ A minha mãe morreu.
A MÃE Oh, meu Deus!
O HOMEM É só vestir o casaco, espera aí. (sai)
A IRMÃ Parece que foi o coração.
A MÃE 2 A tua mãe estava doente?
A IRMÃ Não, foi de repente.
A MÃE O vosso pai e agora a mãe. Se precisarem de alguma coisa…
A IRMÃ Obrigada.
O HOMEM Vamos?
(Saem. Escuro e é o FIM.)
sexta-feira, 24 de abril de 2009
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